Brasil, “Celeiro do Mundo”- um paradoxo.

“No Brasil, apesar da crise mundial, a produção rural não parou. O homem do campo trabalhou como nunca, produziu, como sempre, alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas. O Brasil contribuiu para que o mundo continuasse alimentado”, afirmou o presidente. “Garantimos a segurança alimentar a um sexto da população mundial (…) O Brasil desponta como o maior produtor mundial de alimentos.” 

Assim declarou o presidente eleito do Brasil no dia 22 de Setembro de 2020 diante de uma incrédula plateia, na abertura dos trabalhos da Assembleia Geral da ONU.

Alguém disse, um dia, que o Brasil não é para amadores. E, pelo visto, é exatamente esse o motivo que me faz questionar: o que explica o fato de um país que exporta alimentos para um bilhão de pessoas ter, dentro de seu território, mais de dez milhões de famintos? 

Para não tornar este texto enfadonho, vou citar apenas uma situação que pode nos fazer entender o cerne desse problema, desse virtual paradoxo. Em um passado não muito remoto, para ser mais preciso, no ano de 1952, um acordo militar firmado entre os EUA e o Brasil proibia que este vendesse matérias primas de valor estratégico, como o ferro, para países socialistas. Entre 1953 e 1954, Getúlio Vargas desobedeceu a este acordo, vendendo minério de ferro para a Polônia e Tchecoslováquia por preços mais altos do que aqueles pagos pelos EUA. Uma das causas de sua morte trágica, hoje se sabe, foi a impotência diante da reação dos estadunidenses. Fato idêntico ocorreu com Jânio Quadros em 21 de Agosto de 1961, quando anulou os termos daquele acordo que, diga-se de passagem, vendeu a maior jazida de ferro do mundo, avaliada à época em USD 200 bilhões, por USD 6 (seis!) milhões à Saint John Minning Co., empresa inglesa “legalmente habilitada a explorar” as jazidas de ferro e ouro de Minas Gerais desde os tempos do Império. Jânio renunciou, dizendo que “Forças terríveis se levantaram contra mim…”. [Fonte: “As Veias Abertas da América Latina”]. 

Entre os anos de 2017 e 2018, o IBGE estimou em dez milhões o número de pessoas em situação de grave insegurança alimentar, incluindo crianças. Na mesma pesquisa, o órgão estima em três milhões o incremento de pessoas famintas nos últimos cinco anos (com base no mesmo índice em 2013). [Fonte: IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]

Fazem parte do mapa nações com mais de 5% da população em pobreza extrema. Na prática significa dizer que a cada 20 pessoas uma está em situação de pobreza e fome. [Fonte: FAO /ONU]

O mapa é utilizado pela ONU e outras organizações para concentrar medidas e projetos para erradicar a fome no planeta.

O Brasil que já fez por muitos anos parte desta triste estatística, havia saído do mapa da fome em 2014.

Muitos programas criados em nosso país foram inclusive aplicados em outros países na mesma situação, comprovando o resultado que tivemos com medidas como: Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA), Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Fome Zero.

Estes foram exemplos de políticas exportadas para países Asiáticos e Africanos para combater situações parecidas de pobreza e fome. [Fonte: https://fdr.com.br/2020/05/13/brasil-no-mapa-da-fome-novamente-entenda-como-a-crise-do-coronavirus-afeta-o-pais/ ]

Como entender o que ora ocorre? No próximo artigo, explicações plausíveis para o fenômeno. 

Paulo Truglio é médico nutrólogo

Leave a Reply

Please log in using one of these methods to post your comment:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s